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ELUCIDAÇÃO DE UM CRIME ATRAVÉS DA MARCA DE MORDIDA: RELATO DE UM CASO.

SOLVING A CRIME BY BITE MARKS: A CASE REPORT.

*CALDAS, José Carlos F. G1; PASCHINI, Renata C2; BELMONTE, Luiz Netto3; SPADÁCIO, Célio4; DARUGE, Eduardo5.

UNITERMOS: Odontologia legal, Marcas de Mordida, Identificação Humana, Antropologia Forense.

RESUMO

O Instituto de Criminalística, lotado no município de Santo André, é subordinado à Superintendência da Polícia Técnico-Científica e que é diretamente ligada à Secretaria de Segurança Pública (SSP) do estado de São Paulo. Neste setor são efetuadas perícias criminais diversas como: acidente de trânsito, homicídio, suicídio, roubo, furto, receptação de veículos, estupro, entre outras, por solicitação da autoridade policial da região. Os peritos integrantes das equipes devem ter formação universitária, sendo que no caso relatado o perito é cirurgião-dentista e utilizou seus conhecimentos e técnicas em Odontologia Legal para realização dos trabalhos. O caso descrito refere-se a elucidação de um delito através de um bombom mordido deixado no local do crime. Com a reprodução das impressões dentais do chocolate foi realizada uma análise comparativa com os dentes do suspeito.

1.Perito Criminal do Instituto de Criminalística de Santo André, Cirurgião-dentista especialista em Prótese Dentária e Endodontia, Mestrando em Odontologia Legal FOP Unicamp, professor assistente da Disciplina de Prótese Dentária da UMESP.

2. Cirurgiã-dentista, especialista em Odontologia Legal UNIMES.

3. Médico Legista SP, professor Fac Med UNILUS, UNIMES.

4. Odontolegista do Estado do Mato Grosso.

5. Professor Doutor Titutar da Disciplina de Odontologia Legal da FOP UNICAMP.

INTRODUÇÃO

A Odontologia legal vem desempenhando papel de grande importância em várias áreas onde pode ser aplicada. No que se refere à Antropologia Forense, mais especificamente na parte de Identidade e Identificação, é possível estabelecê-las a partir dos dentes e das suas impressões deixadas em alimentos ou mesmo em pessoas. Não existem dois dentes iguais ainda que no mesmo indivíduo, portanto diversos elementos caracterizam as dentadas de um mesmo indivíduo como: falhas, anomalias de forma ou posição, cárie, fraturas, desgaste, depressões, etc. Dessa forma, um alimento mordido e as marcas dos dentes deixados, por exemplo, permitem a identificação do seu autor, desempenhando um papel decisivo na descoberta de um crime. A identificação através dos arcos dentários pode ser realizada em diferentes casos, quando a coleta de impressões digitais não pode ser utilizada. No vivo em casos de mordidas em alimentos, estupro e agressões; no cadáver em casos de homicídio onde há evidências de marca de mordida, nos carbonizados, encontro de ossadas e exames de DNA.

REVISTA DA LITERATURA

Dinkel et al (1973)2 fizeram uma revisão de literatura sobre o manuseio e exame das marcas de mordida, explicando a sua utilização como auxiliar de investigação da justiça e conseqüente cumprimento da lei.

Webster (1982)9 sugere uma classificação para as marcas de mordida deixadas em alimentos dependendo da profundidade de penetração do dente no alimento e do tipo de alimento mordido.

Tesini et al (1985)8 método novo de registro dental para crianças não agressivo para identificação dentária, realizado em cera e armazenado para uma futura identificação.

Moore (1988)4 discute o reconhecimento e interpretação das marcas de mordida, incluindo fatores que podem influenciar sua aparência, inclusive revisão de técnicas de coleta e preservação.

Dailey (1991)3 determina a precisão da análise das marcas de mordida, reproduzida por uma máquina de fotocópia em transparência.

Robinson et al (1992)6 utiliza o processo Toneline de fotografia de marcas de mordida para preservação da evidência e para comparação com o modelo dos dentes do suspeito.

Barry (1994)1 mostra como as marcas de mordida são utilizadas nas cortes dos EUA.

Nuckles et al (1994)5 fazem uma revisão da evidência das marcas de mordida e odontologia legal devido ao aumento de suas incidências nos crimes (assalto, seqüestro, abuso de criança, homicídio).

Whittaker (1994)10 faz uma introdução à odontologia legal mostrando sua importância no auxílio da justiça, fazendo uma análise das marcas de mordida que deixam informações sobre a identidade do suspeito.

Sims (1994)7 descreve o encontro da Sociedade Médico Legal onde o assunto foi a preparação e o uso da marca de mordida como evidência para identificação de supostos indivíduos.

RELATO DE UM CASO

Em um prédio comercial, no alinhamento geral da via pública, com entrada lateral pelo lado direito, cercado por muro de alvenaria e interrompido por portão de ferro, situado no município de Santo André, estado de São Paulo, funcionava uma casa de produtos esotéricos. O estabelecimento comercial foi furtado e incendiado, denotando em seu interior intensa procura e desordem. Só que antes de completar o delito, o criminoso mordeu um bombom recheado de chocolate puro do tipo "trufa" deixando o restante no local (Fig.1), sobre uma escrivaninha que não foi atingida pelo fogo. A equipe do Instituto de criminalística de Santo André, composta por vários peritos em diversas áreas solicitou um dentista, percebendo a importância do alimento coletado como prova, e levado imediatamente ao congelador para conservação. Foram iniciados então os trabalhos de moldagem com materiais odontológicos (Fig.2) conseguindo-se assim o arco dentário superior do suspeito deixados no bombom. Através de uma intensa investigação chegou-se a um suspeito, que foi moldado; conseguindo-se o arco dentário superior do mesmo para futura comparação.

OBJETIVO

Confrontar pormenorizadamente os caracteres anatômicos do modelo dos dentes do suspeito com o modelo das impressões dentais deixadas no bombom, realizando desta forma a indentificação e determinando a identidade do criminoso.

 

 

MATERIAL E MÉTODO

.Alginato

.Moldeira Superior

.Gesso

.Espátula

.Grau de Borracha

.Silicona de Condensação

.Resina acrílica

.Paquímetro

De posse do bombom com as impressões dentais foi realizado moldagens com alginato e silicona de condensação na tentativa de se reproduzir os dentes do autor da mordida (Fig.3), o que foi conseguido com sucesso. Foi vazado gesso no molde em negativo e obtido o modelo em positivo dos dentes, especificamente anteriores superiores e inferiores. O mesmo procedimento foi realizado no suspeito, moldou-se seus dentes anteriores superiores com alginato e obtido modelos em positivo em gesso (Fig.4) e em resina acrílica para facilitar o estudo e não desgastar durante a manipulação. Com o modelo do bombom mordido e o modelo dos dentes do suspeito foi realizado um exame comparativo para verificar se os dentes do suspeito teriam efetuado a mordida do chocolate (Fig.5).

Fig. 1- Bombom deixado no local do crime com as impressões dos dentes do suspeito

Fig. 2- Moldagem do Bombom

 

Fig. 3- Modelo do Bombom Fig. 4- Modelo do Suspeito

 

 

 

Fig. 4- Comparação dos Modelos do Suspeito e do Bombom

 

RESULTADO

Utilizando um paquímetro mensuramos a largura mésio-distal das incisais dos dentes anteriores superiores do modelo do bombom e do modelo do suspeito e comparamos os valores das medidas obtidas. Um dado importante a ser notado é que na impressão dental do bombom, o dente incisivo lateral apresenta-se lingualizado e o dente do suspeito também se apresenta lingualizado nas mesmas dimensões. Também foi comparada as faces vestibulares dos dentes do modelo do suspeito e do modelo do bombom. Finalizando a análise o modelo dos dentes do suspeito foi colocado sobre o modelo das impressões dentais do bombom e estes tiveram encaixe perfeito.

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

Como já foi descrito os dentes são únicos nos indivíduos, apesar de sofrerem alterações durante a vida. Alimentos mordidos podem ter suas impressões dentais reproduzidas e havendo o modelo dental do possível autor pode-se realizar exames comparativos verificando a unicidade de ambas. Neste caso específico, além das mensurações, o modelo dos dentes do suspeito foi sobreposto ao modelo da mordida e houve um encaixe perfeito das estruturas dentais. Identificamos desta forma o autor da mordida e consequentemente a identidade do criminoso.

SUMMARY

The Institute of Criminalística, placed in the municipal district of Santo André, it is subordinated to the Superintendency of the Technician-scientific Police and that is directly linked to Public Safety's Clerkship (SSP) of the state of São Paulo. In this section several criminal investigations are made as: accident of traffic, homicide, suicide, robbery, theft, receiving of stolen vehicles, rape, among other, for the authority policeman's of the area solicitation. The integral experts of the teams should have academical formation, and in the case report the expert is a dentist and he used his knowledge and techniques in Forensic Dentistry for accomplishment of the works. The case refers to an elucidation of a crime through a bitten chocolate left at the place of the crime. With the reproduction of the dental impressions of the chocolate a comparative analysis was accomplished with the suspect's teeth.

KEY WORDS: Forensic Dentistry, Bite Marks, Human Identification, Forensic Anthropology.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. BARRY, L. A. Bite mark evidence collection in the United States. Bulletin of History of Dentistry, v. 42, n. 1, p. 21-27, March 1994.
  2. DINKEL, E. H. Jr. The use of bite mark evidence as na investigative aid. J. Forensic Sci, p. 535-547, 1993.
  3. DAILEY, J. C.. A practicial technique for the fabrication of transparent bite mark overlays. J. Forensic Sci, v. 36, n. 2, p. 565-570, March 1991.
  4. MOORE, D.. Teeth make their mark. Scientific Moore, v. 22, n. 3, p. 133-136, September 1998.
  5. NUCKLES, D.B.; HERSCHAFT, E.E.; WHATMOUGH, L.N.. Forensic odontology in solving crimes: dental techniques and bite-mark evidence. General Dentistry, p. 210-214, May-June 1994.
  6. ROBINSON, E.; WENTZEL, J.. Toneline bite mark photography. J. Forensic Sci, v. 37, n. 1, p. 195-207, January 1992.
  7. SIMS, B.; GOLDMAN, L.. The preparation and use of dental evidence. Médico-Legal Journal, v. 63, n. 4, p. 136-149, 1995.
  8. TESINI, D.A.; O’MALLEY, K.P.; SCHWARTZ, S.. Development of bite impression techniques for use in identification of missing and unknown children. J. Mass. Dent. Soc, v. 34, n. 2, p. 61-63, 1985.
  9. WEBSTER, G.. A suggested classification of bite marks in foodstuffs in forensic dental analysis. Forensic Sci Int, v. 20, p. 45-52, 1982.
  10. WHITTAKER, D. K. An introduction to forensic dentistry. Quintessence International, v. 25, n. 10, p. 723-730, 1994.

 

Endereço para contato:
José Carlos de Freitas Garcia Caldas
Setor de Antropologia Forense (IML de Santo André)
Av. Príncipe de Gales, nº 821
Bairro Vila Palmares
Santo André – S.P.
Cep: 0960-650
Telefone: 712-9090

 


 

Realização:

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