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CIRUGIÃO DENTISTA, SOROLOGIA POSITIVA PARA HIV: AS OPINIÕES DE UM SEGMENTO DA CATEGORIA ODONTOLOGIA SOBRE A QUESTÃO

THE DENTAL SURGEON WITH POSITIVE SOROLOGY FOR HIV/AIDS: OPINIONS THEIR COLLEAGUE

Lázara Regina de Rezende; Dalton Luiz de Paula Ramos

Resumo

O presente trabalho busca analisar o conhecimento sobre HIV/AIDS e as opiniões dos membros da categoria odontológica sobre como deve-se comportar o C.d. sorologia positiva para HIV. Os dados foram colhidos através de 157 entrevistas na forma de questionário, aplicado a C.Ds. alunos de diferentes cursos de especialização em escolas de aperfeiçoamento profissional do Norte do Paraná. A pesquisa demonstra que os entrevistados detêm conhecimento básico sobre HIV/AIDS. Na opinião dos entrevistados o C.d. contaminado deve continuar suas atividades profissionais e não sendo necessário que este deva relatar sua situação de positividade.

Unitermos: HIV/AIDS; profissional; sorologia positiva; cirurgião dentista

 

1 . INTRODUÇÃO

Há quase duas décadas instalou-se a epidemia de AIDS no planeta. Não é a primeira epidemia a assolar os seres humanos e, provavelmente não será a última. Como toda doença de massa, ela rege comportamentos e marca transformações na sociedade. Comportamento que nega a ameaça da doença no primeiro momento, para, em seguida, dar-se o direito de negligenciar ou manipular para aumentar ou diminuir seu impacto, atribuindo sua origem a grupos marginalizados. Foi assim com a hanseníase, a peste bubônica, a sífilis e a gripe espanhola, que geraram reações de histeria coletiva, punições injustas e falsas atribuições das causas das doenças a grupos discriminados por suas crenças religiosas ou por sua origem social.

Como a AIDS foi inicialmente identificada entre a comunidade homossexual norte-americana (no final da década de 70 e início da de 80), acreditou-se que se tratava de uma doença típica de "gays". Os heterossexuais estavam a salvo. Nos primeiros anos da epidemia já se descobriu que a AIDS, ao contrário de alguns seres humanos, não discrimina sexo, cor, idade, nacionalidade ou cultura.

Com a disseminação HIV/AIDS pelo mundo, a sociedade viu-se obrigada a buscar conhecimento para esta doença mortal. Tomada de conhecimentos que mudaram radicalmente seu caráter de doença fatal para crônica, que ainda não apresenta cura, como outras moléstias, mas apresenta controle.

O perfil discriminatório sobre as contaminações mediante a este conhecimento adquirido está sendo deixado. Assim, o profissional da Odontologia, como qualquer outro cidadão que busca sua realização como pessoa humana, pode vir a se contaminar com o aludido vírus, fazendo surgir questionamentos e posicionamentos na categoria odontológica

 

2 . REVISÃO DE LITERATURA

Formas de Transmissão

As principais formas de transmissão do HIV são: sexual por relações homo e heterossexuais; sangüínea, em receptores de sangue ou homoderivados e em UDIV(usuário de drogas intravenosas); e perinatal, abrangendo a transmissão da mãe para o filho durante a gestação, parto ou por aleitamento materno. Além destas formas mais freqüentes há também a transmissão ocupacional, por acidente de trabalho em profissionais da área de saúde que sofrem ferimentos pérfuro – cortantes contaminados com sangue de pacientes com infecção pelo HIV e, finalmente, há oito casos descritos na literatura de transmissão intradomiciliar nos quais não houve contatos sexuais nem exposição sangüínea pelas vias classicamente descritas.

A principal forma de exposição no mundo todo é a sexual, sendo que a transmissão heterossexual através de relações sem uso de preservativo é considerada, pela OMS, como a mais freqüente do ponto de vista global. Nos países desenvolvidos a exposição ao HIV por relações homossexuais ainda é a responsável pelo maior número de casos, embora as relações heterossexuais estejam aumentando de importância na dinâmica da epidemia. Os fatores que aumentam o risco de transmissão do HIV numa relação heterossexual são: alta viremia ou imunodeficiência avançada; relação anal receptiva; relação sexual durante a menstruação; e concomitância de doenças sexualmente transmitidas, principalmente das ulcerativas. Sabe-se hoje que as úlceras resultantes de infecções como cancróide, sífilis e herpes simples amplificam a transmissão do HIV.

A transmissão sangüínea associada ao uso de drogas intravenosas é um meio muito eficaz de transmissão do HIV devido ao uso compartilhado de seringas e agulhas. Esta forma tem importância crescente em várias partes do mundo, como na Ásia, América Latina e no Caribe. Nos países industrializados também tem sido crescente a transmissão pelo uso de drogas IV, sendo que em alguns países como na Espanha já é a primeira causa de exposição ao HIV.

A transmissão através da transfusão de sangue e derivados tem apresentado importância decrescente nos países industrializados e naqueles que adotaram medidas de controle da qualidade do sangue utilizado, como é o caso do Brasil. A utilização de seringas e agulhas não descartáveis e não esterilizadas foi responsável por muitos casos no mundo todo.

A transmissão perinatal, decorrente da exposição da criança durante a gestação, parto ou aleitamento materno vem aumentando devido à maior transmissão heterossexual. Na África são encontradas as maiores taxas desta forma de infecção pelo HIV, de 30 a 40%, enquanto em outras partes do mundo, como na América do Norte e Europa situam-se em torno de 29 a 35%. Os motivos desta diferença devem-se ao fato de que naquele continente a transmissão heterossexual é mais intensa e também ao aleitamento materno, muito mais freqüente do que nos países industrializados.(Lima,1966)

Segundo Lima (1996), a transmissão ocupacional ocorre quando profissionais da área da saúde sofrem ferimentos pérfuro - cortantes contaminados com sangue de pacientes soropositivos para o HIV. Estima-se que o risco de contrair o HIV após uma exposição percutânea a sangue contaminado seja de aproximadamente 0,3%. Os fatores de risco já identificados como favorecedores deste tipo de contaminação são: a profundidade e extensão do ferimento; a presença de sangue contaminante visível no instrumento que produziu o ferimento; o procedimento que resultou na exposição envolver agulha colocada diretamente na veia ou artéria de paciente HIV positivo; e, finalmente, o paciente fonte da infecção ser terminal. O uso da zidovudina após a exposição aparentemente reduz a chance de transmissão do HIV.

 

 

Probabilidade de aquisição do HIV pelo profissional de saúde no seu trabalho

Embora tipos de exposição acidental, como através de contato de sangue ou secreções com membranas mucosas ou pele íntegra possam, teoricamente, ser responsáveis por infecção pelo HIV, o risco relativo desses meios são insignificantes quando comparados com a exposição percutânea, através de instrumental pérfuro – cortante.

Lima (1996), em estudos prospectivos, o risco de um profissional de saúde infectar-se com HIV após acidente percutâneo é estimado em aproximadamente 0,3%, sendo essa taxa passível de sofrer influências de vários fatores.

Sabe-se que o risco de infecção pelo HIV é maior se a exposição envolver grande quantidade de sangue do paciente HIV positivo, procedimento que envolva cateter diretamente ligado a veias ou artérias e ferimentos perfurantes profundos.

A exposição percutânea com sangue de doentes em estágios avançados de AIDS ou com infecções agudas pelo HIV, aumenta o risco de contaminação pois nesses dois momentos da infecção a carga viral circulante é muito elevada.

Outros fatores, como prevalência da infecção pelo HIV na população de pacientes, nível de experiência dos profissionais de saúde, uso de precauções universais (luvas, óculos de proteção, máscaras, aventais) bem como a freqüência de aplicação dos procedimentos invasivos, podem também influir no risco de transmissão do HIV.

O CDC (Center for Diseases Control and Prevention, Atlanta, USA) recomenda seguimento sorológico em seis semanas, doze semanas e seis meses após exposição, sem deixar de realizar a sorologia no tempo "zero" após o acidente. Pode-se optar, se disponível, pela pesquisa do HIV por PCR, que ao detectar o genoma viral, informa precocemente e com certeza a condição de portador ou não do profissional.

As formas que o profissional de saúde infectado pelo HIV pode contaminar seus pacientes na prática profissional

A transmissão do HIV para pacientes pode ocorrer diretamente pela inoculação de sangue ou outro fluido corpóreo ou indiretamente através do uso de instrumentos contaminados. Inoculação direta é possível quando um profissional infectado é ferido e sangra sobre uma ferida cirúrgica do paciente, ou quando um instrumento contaminado causador de ferimento, entrar novamente em contato com os tecidos do paciente.

A freqüência de lesões severas o suficiente para determinar contaminação pelo sangue em feridas cirúrgicas ou nos tecidos dos pacientes submetidos a procedimentos invasivos é desconhecida, mas provavelmente é extremamente rara.

A freqüência de exposição de material contaminado, tal como, a que ocorre quando uma agulha de sutura fere um profissional infectado e continua sendo usada através dos tecidos do paciente, parece ser a situação mais comum, contudo, o risco de contaminação por esta via é desconhecida. Até o presente não há referências na literatura sobre esta forma de contaminação.

Instrumentos contaminados com sangue de profissionais podem transmitir o HIV para o paciente se os procedimentos de desinfecção apropriados não forem observados.

Precauções tomadas pelo profissional de saúde infectado pelo HIV para prevenir a contaminação de seus pacientes

Segundo Lima (1996) os riscos de um profissional de saúde infectar seus pacientes são pequenos e de difícil mensuração.

Além de todas as precauções universais que devem ser usadas por todos os profissionais de saúde, como uso de luvas, aventais, máscaras e óculos de proteção, deve-se ter sempre em mente os cuidados adicionais na manipulação de instrumentos cortantes e perfurantes.

Recomenda-se também aos profissionais portadores de HIV não executarem procedimentos invasivos por serem estes os de maiores riscos de transmissão. Essa restrição à atuação profissional - paciente quanto a paciente – profissional, baseia-se na determinação dos fatores associados aos riscos e eliminá-los eficientemente, bem como implementando os avanços da tecnologia e da instrumentação usadas na rotina de procedimentos invasivos.

Dignidade Humana

A tradição filosófica ocidental encarregou-se, ao longo dos tempos, de aprimorar o ideal de pessoa humana elaborado pelo cristianismo, especialmente por Santo Tomás de Aquino. Na contemporaneidade a idéia voltou a ganhar status filosófico e encontrou em Emmanuel Mounier e Urbano Zilles seus principais estruturadores.

Carvalho & Silva (1999) foca sua reflexão na avaliação do universo humano, estabelecendo o primado da dignidade humana, elaborando uma crítica à modernidade e recolocando a questão da religião no cenário filosófico. No que se refere à atualidade científica e tecnológica, observa-se os aspectos da fragmentação e da massificação.

Os atuais avanços da ciência e da tecnologia, fez surgir o fenômeno especialização: "O especialista é aquele que tende a saber tudo sobre quase nada e quase tudo nada sobre o todo" (Zilles, apond. Carvalho & Silva, 1999). A experiência de um mundo fragmentado e sem profundidade, gera angústia, futilidade e sentimento de vazio. Em nome da eficácia, do imediato, da racionalidade pura, do imediato, da tecnologia, acredita-se na plena superioridade humana. No entanto, na medida que o homem deposita todos os seus anseios na ciência, ele vai perdendo a noção de qual seja o sentido de sua existência. Em sua vida, o espaço para reflexão interior, para a religião, para a realização de um projeto de vida, vai sendo cada vez mais reduzido. A conseqüência de tal situação é a massificação do homem.

A vida humana quando massificada perde em dignidade e em liberdade, e reduz-se a um coletivismo alienante. Enquanto o homem escolher a ciência como padrão de resposta aos seus questionamentos, sujeitar-se-á a modismos de toda sorte e submeter-se-á a projetos políticos totalitários, reduzindo seu espaço de realização pessoal e cedendo sua dignidade, liberdade e singularidade às pressões sociais. A situação se agrava logo que o universo humano passa também a ser tratado dentro desta ótica: as ciências humanas passam a utilizar as categorias das ciências empíricas e, em virtude disso a vida pessoal se fragmenta, conseqüência da priorização de determinadas dimensões da vida humana. Com isso, a profundidade com que devemos tratar o universo humano perde lugar às visões sistemáticas que limitam o campo de atuação de pessoa, e pior, com isso ela passa a ser objetivada.

A filosofia deve estar direcionada para a defesa da pessoa humana. Mas que significa defendê-la? Significa dizer que quando tratamos do universo humano "nossa concepção de realidade deve ser compreensiva e global, ou seja, deve envolver a pessoa inteira e não só um ou outro aspecto" (Zilles apond. Carvalho & Silva, 1999). Com isso devemos indicar novos caminhos no entendimento da vida pessoal onde o conhecimento científico e valorização da pessoa humana devem caminhar juntos, formando um todo, que cresce em perfeita harmonia; o homem não deve ser tratado como objeto mas como sujeito, por isso com dignidade. Deve-se considerar o universo humano em sua complexidade, falar da finitude, da experiência religiosa, do sentido da existência humana.

 

 

Trabalho

O trabalho é fonte de saúde física e mental e de felicidade para o ser humano. Contribui para que sejamos apreciados, condição essa que toda pessoa busca, consciente ou inconscientemente. Dá-nos a sensação de utilidade e de dever cumprido, que aumenta o respeito próprio. Utiliza, de forma proveitosa para nós mesmos e para a sociedade, as energias físicas e mentais, energias que, não bem empregadas, seriam provavelmente desviadas do seu objetivo.

Segundo consta da Declaração Universal do Direitos Humanos, art. XXIII, "toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego". Seguindo a mesma trilha, a nossa Constituição Federal assegura o "direito à relação protegida contra a despedida arbitrária ou sem justa causa" (art. 7º, inc. I; Paraná, 1997).

E nem poderia ser diferente, especialmente no que tange às pessoas acometidas pelo vírus HIV, já que nada indica que o afastamento do trabalho lhe traga vantagens pessoais ou proteção para seus colegas. Atualmente, se tem como certo o fato de que a AIDS não se transmite pelo convívio no local em que são desenvolvidas as atividades profissionais, o que levou à Organização Internacional do Trabalho – OIT – a declarar que "a infecção por si só não significa limitação para o trabalho", além de que "a contaminação não configura motivo para demissão". (Paraná, 1997).

A tanto se agrega a necessidade de a pessoa infectada se manter trabalhando, seja para a melhoria das suas condições físicas e psicológicas, seja para obter mais satisfatórias possibilidades de manutenção e sustento próprios.

 

3. PROPOSIÇÃO

Com o objetivo de sentir o nível de conhecimento sobre HIV/AIDS e a opinião de C. Ds. alunos de diferentes cursos de especialização do Norte do Paraná, a respeito dos preconceitos vividos e das posturas que adotariam junto à situação de C. D. contaminado pelo HIV/AIDS.

 

 

 

4. MATERIAL E MÉTODO

O presente estudo foi conduzido em duas Escolas de Aperfeiçoamento Profissional: Associação Odontológica do Norte do Paraná, em Londrina e Associação Maringaense de Odontologia, em Maringá, nos cursos de Especialização: Endodontia, Implante, Odonto Pediatria, Dentística Restauradora, Ortodontia, Periodontia e Prótese Dental.

As opiniões foram obtidas mediante a aplicação do seguinte questionário:

Sexo:_________________________________ Idade:________________________________

Ano de Formatura: ______________________

Cidade de Residência: ___________________ Trabalho:_____________________________

Faculdade pública ou particular: _________________________________________________

Trabalha só no consultório ou possui vínculo empregatício:____________________________

Principal atividade desenvolvida no consultório: ____________________________________

Possui outra especiallização:____________________________________________________

O que é sorologia positiva para HIV, quais as possibilidades de contágio na prática odontológica:________________________________________________________________

Na hipótese de se tratar do Cirurgião Dentista sorologia positiva para HIV, você considera que este profissional possa exercer suas atividades profissionais:________________________

No caso do Cirurgião Dentista exercer atividade profissional este deve relatar que é sorologia positiva para HIV aos. pacientes:_________________________________________________

O presente questionário é dividido em duas partes: a primeira destina-se para definir a amostragem; a segunda é direcionada ao tema, onde só a questão "O que é sorologia positiva para HIV, quais as possibilidades de contágio na prática odontológica" avalia o conhecimento. As demais questões são de opinião.

 

5. RESULTADOS

O comportamento (como olhar, sorriso, gesto, expressão) e considerações sobre o tema abordado ocorridos durante a aplicação do questionário foram considerados para a elaboração das conclusões.

Passamos a apresentar os resultados numéricos das entrevistas. Foram distribuídos 173 questionários, dos quais 157 foram respondidos.

As tabelas foram usadas para apresentar os dados numéricos que definem a amostragem de alunos.

TABELA 1 – DISTRIBUIÇÃO POR: SEXO, FACULDADE, TRABALHO E ESPECIALIZAÇÃO DOS ESTREVISTADOS.

RESULTADOS

SÓ VÍNC JÁ NÃO



PERGUNTA FEM MAS PARTIC PÚBL CONSULT EMPREG POSSUI POSSUI

SEXO 78 79

FACULDADE 63 94

TRABALHO 91 66



ESPECIALIZAÇÃO 64 93

 

TABELA 2 – FAIXA ETÁRIA DOS TABELA 3 – ANO DE FORMATURA

ENTREVISTADOS DOS ENTREVISTADOS



IDADE RESULTADOS (N.º DE ALUNOS) ANO RESULTADO

20 – 30 63 1950 – 1970 10

30 – 40 67 1970 – 1980 17

40 – 50 17 1980 – 1990 73



50 – 60 10 1990 – 1999 57

As respostas das perguntas específicas ao assunto HIV foram agrupadas em três ou quatro categorias, de acordo com o conteúdo científico. Algumas respostas não foram consideradas, devido à difícil leitura, serem incompletas ou sem relação com o tema.

Para a pergunta - O que é sorologia positiva para HIV? Quais as possibilidades de contágio na prática odontológica? Obteve-se as seguintes respostas:

- É a presença do vírus HIV/AIDS ou anticorpos sem a manifestação da doença, as possibilidades de contágio são mínimas. 38 respostas

     

  • É a presença do vírus HIV/AIDS ou anticorpos, o contágio pode ocorrer através de sangue, instrumentos perfurocortantes. 85 respostas
  •  

  • Paciente com AIDS, o contágio pode ocorrer através de sangue, saliva, líquidos corpóreos, instrumentos perfurocortantes, brocas e esperma. 09 respostas
  •  

  • -Resposta não considerada. 23 resposta

Para a pergunta – Na hipótese de se tratar do cirurgião dentista sorologia positiva para HIV, você considera que este profissional possa exercer suas atividades profissionais?

     

  • Sim com todas as medidas de biossegurança. 63 respostas

- Sim. 72 respostas

     

  • Não. 12 respostas

- Resposta não consideradas. 10 respostas

Para a pergunta – No caso do Cirurgião Dentista exercer atividade profissional este deve relatar que é sorologia positiva para HIV aos seus pacientes?

     

  • Não. 49 respostas
  •  

  • Sim. 50 respostas
  •  

  • Não devido ao preconceito, pois perderá os pacientes. 27 respostas
  •  

  • Sim eticamente, mas perderá os pacientes. 14 respostas

- Não consideradas. 14 respostas

 

6. DISCUSSÃO

Os profissionais da saúde na luta contra o HIV buscaram conhecimentos técnicos eficientes para atender os pacientes contaminados sem correrem o risco de contaminarem-se. Como também de não promover a contaminação entre os pacientes.

Para o perfeito controle das infeções do vírus HIV na prática odontológica, todos os pacientes devem ser hipoteticamente considerados sorologia positiva para HIV/AIDS, levando o C.D. a usar medidas de biossegurança universal, medidas estas que possibilitam o profissional atender seus pacientes sem contaminar-se como não promover a transmissão do vírus HIV e de outras doenças contagiosas que possam passar pelo consultório odontológico.

Segundo Levi (1992), a possibilidade de contaminação nos processos invasivos é extremamente baixa, sendo avaliada entre 1/23.000 a 1/1.000.000 procedimentos invasivos e tornam-se menores quando o profissional usa luvas de Kevlar, as quais apresentam maior resistência que as luvas de látex comumente usadas.

O C.D. sorologia positiva para HIV que atende os critérios de biossegurança universal ao realizar os procedimentos odontológicos, estará empregando o princípio básico do Código de Ética Odontológica, capítulo III, art. 3, que é "zelar pela saúde e dignidade do paciente".

Não podemos desprezar que o trabalho é de relevante importância para o equilíbrio biopsicossocial como para a recuperação de doenças crônicas de qualquer pessoa.

O C.D. diante do quesito de revelar ou não sua situação de sorologia positiva para HIV ao paciente porta-se como qualquer pessoa: "tem medo" do preconceito, do julgamento e discriminação dos pacientes.

Gerbert et al (1987), Grace et al (1994) demonstram através de entrevistas à população americana uma posição negativa desta, perante a situação de ser atendida por C.D. sorologia positiva para HIV/AIDS.

Bastos et al (1997), em estudo realizado no Rio de Janeiro, demonstram que a população entrevistada acredita na possibilidade de transmissão do HIV, durante o tratamento odontológico.

Discacciati et al (1999), demonstram que as medidas de biossegurança encorajam os pacientes a continuar o tratamento mesmo que o C.D. atenda paciente com HIV/AIDS, porém não influencia na disposição do paciente continuar o tratamento com o C.D. sorologia positiva para HIV.

Estes dados reforçam o comportamento do C.D. em omitir ou negar seu estado de infectado, passando a ter uma vida profissional de ilegalidade perante os olhos do preconceito. Como cidadão que vive seus direitos pleno de cidadania, o profissional da odontologia que convive com aludido vírus, não é obrigado a cada exame clínico relatar ao paciente a sua sorologia positiva.

No momento que este profissional for questionado pelo paciente, cabe então revelar seu estado de saúde, dando ao paciente o direito de exercer sua cidadania, que é poder escolher se quer ou não ser atendido pelo profissional.

O esclarecimento a respeito HIV/AIDS e as medidas de biossegurança eficientes devem ser proferidos pelo profissional aos seus pacientes, pois nós C.D. temos a capacidade de influenciar nossos pacientes. Qual o colega que não foi questionado pelo paciente sobre a pandemia HIV/AIDS?

As noções de cuidados próprios e controle sobre nossas vidas precisam ser incorporados no nível emocional e não impostas racionalmente, se queremos educar verdadeiramente para a prevenção, temos de nos descartar da ilusão de que existem soluções rápidas e imediatistas. Por que o medo e o preconceito das pessoas que convivem com HIV/AIDS? Será o medo de mudança? Ou será porque elas fazem recordar do mito da morte? Morte que fazemos ocorrer a cada instante quando agimos preconceituosamente diante do tema HIV

Neste momento a categoria odontológica necessita buscar uma posição frente ao mencionado vírus que hoje não só envolve os seus pacientes, como os membros formadores da classe. Não podemos portarmo-nos de maneira moralista, hipócrita e com descaso diante ao C.D. convivendo com HIV/AIDS.

O C.D. sorologia positiva vive na clandestinidade, como algumas pessoas nos primeiros anos da doença, "os famosos grupos de risco" (homossexuais masculinos, usuários de drogas injetáveis e prostitutas), mas que acordaram para seus direitos, passando a impor seus pontos de vista e reivindicações.

Espera-se que a categoria odontológica siga o exemplo destes cidadãos, porque mais do que nunca a sociedade está sendo afrontada com a posição que a discriminação eqüivale a um atestado de ignorância

Analisando o número de pessoas convivendo com HIV/AIDS no mundo, leva-nos a acreditar que iremos conviver com a pandemia e suas conseqüências por muito tempo, mesmo que ela deixe de ser prioridade em virtude de outras situações mais graves.

A comunidade odontológica não pode deixar que a falta de reflexões e respostas para os referidos questionamentos tragam prejuízos para as futuras gerações de odontólogos. Não é por não termos dados disponíveis ou divulgação pela mídia do número de colegas contaminados pelo HIV/AIDS que a comunidade odontológica, através das entidades representantes, deixará de lado a busca de tais respostas, pois a solidariedade e o esclarecimento são grandes remédios contra o HIV, e é mais eficiente contra o vírus do preconceito

 

7. CONCLUSÕES

Com base na literatura pesquisada e análise das entrevistas e comportamentos, pode-se concluir que:

  • Os entrevistados demonstram conhecimento básico a respeito de HIV/AIDS, conhecimento este que leva a adotar medidas de biossegurança, tornando assim o mínimas as possibilidades de contágio na prática odontológica.
  • C. D. sorologia positiva para HIV pode continuar suas atividades profissionais, desde que as medidas de biossegurança preconizadas sejam adotadas. Entendemos que não necessita revelar sua condição de positividade aos pacientes, mas quando questionado por este, cabe-lhe no momento revelar a verdade.
  • Além do conhecimento técnico-científico que assegura medidas de controle de possíveis infeções na prática odontológica, é necessário ampliá-los para o campo da bioética. Assim alcançaremos reflexos maduros, resgatando valores como: a natureza humana, dignidade, vida e cidadania, gerando mudanças comportamentais da sociedade no inter-relacionamento com os portadores de HIV/AIDS.
  • O desinteresse daqueles profissionais que se recusaram a preencher o questionário quando procurados pela entrevistadora, poderia refletir: Será que estes profissionais ainda se consideram imunes ao vírus, ou ainda consideram que só os famosos "grupos de risco" podem vir a contaminar-se? Uma maior reflexão sobre o polêmico tema será esclarecedora para os profissionais da Odontologia, fazendo emergir um profissional com novo perfil, apto às necessidades técnico – científicas como humanitárias que surgem com o processo de modernização e globalização.

ABSTRACT

The study analyses the level of knowledge of HIV/AIDs among dentists and how they face questionings like: should or should not positive sorology for HIV/AIDS professionals tell his/her patients about conditions and whether they should keep on working. The data was collected as questions sheets interviews answered by 157 dentists students in post graduation in schools in the North of Parana state, Brazil. The research shows those professionals have basic knowledge about HIV/AIDS. They agree about main taing their jpb activities and that revealing their patients about being or not positive sorology for HIV/AIDS is not relevant.

Uniterms: HIV/AIDS; professionals; positive sorology; dentists

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