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ANÁLISE DAS ROTINAS ADOTADAS NOS SERVIÇOS DE TRIAGEM DE INSTITUIÇÕES DE ENSINO ODONTOLÓGICO PARA ATENDIMENTO E ENCAMINHAMENTO DE PACIENTES: ASPECTOS ÉTICOS Odete M. Trindade; Mendel Abramowicz; Dalton
L. P. Ramos Para implementar a aprendizagem dos futuros
cirurgiões-dentistas, as instituições de ensino promovem a aplicação dos
conhecimentos científicos e técnicos apreendidos em pessoas que procuram
atendimento odontológico em suas clínicas. Atualmente, como esta procura tem
apresentado uma tendência crescente, as instituições são obrigadas a limitar
e direcionar o atendimento. Surge então o dilema de como conciliar as
necessidades de tratamento odontológico da população com as diferentes
necessidades para a formação profissional. Neste trabalho propomo-nos a fazer
uma análise das rotinas adotadas para o atendimento e o encaminhamento de
pacientes, e da documentação utilizada para avaliação das condições de saúde
destes indivíduos nos serviços de triagem de algumas instituições de ensino,
visando verificar se as mesmas são suficientes para suprir as exigências éticas.
Da análise da documentação e das rotinas dos diferentes serviços de triagem,
por meio de entrevistas, elaboração de fluxogramas, avaliação de fichas de
anamnese e de termos de autorização, concluímos que as mesmas não são
suficientes para suprir as exigências éticas. Assim, a partir do momento em
que os currículos e procedimentos das instituições deixarem de priorizar
apenas a aquisição de conhecimentos técnicos e científicos, ampliando o espaço
para a aplicação dos conhecimentos humanos e sociais e respeitando todos os níveis
de integração curricular, estaremos muito próximos de formar um profissional
de excelência técnica e elevada consciência social, cuja atuação será
sempre norteada pelos princípios da ética. INTRODUÇÃO O processo para a formação de cirurgiões-dentistas
apresenta um desenvolvimento curricular relacionado à aplicação e ampliação
de conhecimentos e habilidades direcionadas à sua atuação profissional por
meio de conhecimentos científicos e técnicos apreendidos em pessoas que
procuram atendimento odontológico em suas clínicas e/ou serviços. Atualmente, devido a fatores econômicos,
sociais, ou mesmo de necessidade especial de atenção à saúde bucal temos
observado crescente procura por atendimento odontológico nestas instituições. Como a procura por este tipo de atendimento tem
se mostrado em número superior àquele que as instituições de ensino
necessitam para o cumprimento da grade curricular e à disponibilidade de vagas
proporcionadas pelas diferentes disciplinas clínicas, estas instituições são
obrigadas a limitar ou mesmo direcionar o atendimento. Surge então o dilema de como conciliar as
necessidades de tratamento da população, de um lado, com as diferentes
necessidades das instituições de ensino odontológico para formar o futuro
profissional. Uma seleção, portanto, faz-se necessária, devendo ser realizada
de tal forma que os indivíduos sejam respeitados em suas necessidades e
dignidade. Em conseqüência de professores e instituição
representarem modelos de atendimento e relacionamento com os pacientes para os
educandos, a atenção e o tratamento dispensado à comunidade devem ser
priorizados, a fim de proporcionar, ao futuro profissional, uma perspectiva em
que o exercício da Odontologia esteja indissociavelmente ligado à ética e ao
respeito à dignidade humana. Portanto, parece-nos oportuna uma avaliação dos
aspectos éticos relacionados às rotinas e aos procedimentos de documentação
das avaliações de saúde de pacientes adotados pelos serviços de triagem das
instituições de ensino odontológico. Podendo ser ressaltado que, em 1961, Guimarães
Jr., ao tecer considerações sobre as condições de organização e
funcionamento das faculdades e cursos de odontologia do país, ressaltou que "profissão
e formação profissional confundem-se, de certa forma, pois é impossível
dissociar os termos da equação: profissional mal formado é um mau
profissional". A preocupação fundamental de um curso de
odontologia deveria ser a de possibilitar ao aluno adquirir conhecimentos gerais
e especializados atinentes à Odontologia, tanto no aspecto cognoscitivo - com a
amplitude de conhecimentos que implicam na capacitação profissional - quanto
no desenvolvimento de habilidades psicomotoras - com o domínio relativo das técnicas
mais importantes ao exercício de sua profissão - e no campo das atitudes - que
representam os objetivos educacionais afetivos, tais como os éticos e os
sociais, expressos em uma atuação profissional que valorize a profissão, o
paciente e a sociedade, além da compreensão do aspecto social e humano de uma
profissão de saúde (Vieira, 1974). Um currículo deve ser constituído de forma tal
que o aluno adquira conhecimentos necessários à sua formação, seja esta
geral ou específica, intelectual ou profissional. Segundo Ward (1972), "o
currículo deve ter continuidade, seqüência e integração. A continuidade
exige que todas as idéias básicas sejam enfatizadas repetidamente através de
todo o programa. A seqüência requer que as idéias básicas sejam usadas em um
contexto sempre mais amplo; e a integração obriga referências cruzadas e contínuas
entre todos os cursos ensinados ao mesmo tempo". Todos estes aspectos devem ser considerados de
modo a formar um profissional o mais próximo da realidade social, econômica,
tecnológica e científica da comunidade que necessita de sua atuação. Assim,
como bem salientou Marcos (1991) "currículos e escolas só têm sentido
se procurarem trabalhar propostas que visem à formação de pessoas com consciência
da realidade histórico-social e do contexto onde vivem e atuam". Ao tecer considerações a respeito dos caminhos
para a educação odontológica nacional, Perri de Carvalho (1996) salientou que
cuidados com a saúde geral dos pacientes são mais um ideal do que a realidade
na educação clínica, uma vez que no processo instrucional adotado ainda são
mais evidenciados os procedimentos do que os cuidados com pacientes. De acordo com as Diretrizes Curriculares para os
Cursos de Odontologia (1998), devem-se formar cirurgiões-dentistas com formação
humanista, ética e científica, com segurança e propriedade na promoção da
saúde e na prevenção, mas que não seja um "operário da
odontologia", com mentalidade puramente tecnicista. Assim, o profissional da odontologia deve ser
capaz de reconhecer as alterações localizadas na cavidade bucal e estruturas
anexas quer sejam reflexos de doenças sistêmicas ou não, ou mesmo doenças
gerais que possam comprometer ou impedir o tratamento odontológico, além da
prevenção, diagnóstico e tratamento das doenças bucais. Assim, para o adequado planejamento do tratamento
odontológico, segundo Coleman & Nelson (1996), o profissional deveria
proceder à elaboração de uma estratégia para resolver o maior número possível
de problemas odontológicos do paciente, de forma a reorganizar todos os métodos
de tratamento necessários dentro de uma seqüência lógica. Preocupados com a documentação sobre as condições
de saúde dos pacientes em relação aos aspectos de responsabilidade
profissional, Ramos & Calvielli (1991), lembram que, nas ações que se
processam contra cirurgiões-dentistas, com freqüência as alegações do
profissional não podem ser comprovadas por falta de suporte documental. De acordo com Silva (1997), não se pode
compreender que a atuação do profissional possa se desenrolar sem o
conhecimento do estado geral de saúde do paciente, dada a responsabilidade
profissional, seja a ética, a legal, a administrativa, ou mesmo as implicações
civis ou penais que serão assumidas pelo cirurgião-dentista a partir do
momento em que assume a realização do tratamento, em todas as suas fases. De acordo com Ramos & Trindade (1997), é
também nas clínicas de atendimento das instituições de ensino que são
realizados estudos que constituirão casuística de muitas pesquisas. Sendo
requisito ético zelar para que o público que a procura seja devidamente
esclarecido sobre o fato de que os tratamentos oferecidos serão realizados por
alunos, quando geralmente é assinado um termo de esclarecimento. Devendo ser
lembrado que essa autorização não substitui o consentimento esclarecido do
paciente como eventual participante de pesquisa, que deverá ser especificamente
elaborado para cada pesquisa em particular. Segundo as Diretrizes Éticas Internacionais para
Pesquisas Biomédicas Envolvendo Seres Humanos, toda pesquisa envolvendo seres
humanos deverá ser conduzida de acordo com três princípios de Bioética:
beneficência, autonomia e justiça (OMS, 1995). No Brasil, a partir da edição da Resolução
196/96 do Conselho Nacional de Saúde, foram estabelecidas diretrizes para a
pesquisa envolvendo seres humanos. Esta Resolução determinou que deverão
existir obrigatoriamente, nas instituições que realizam pesquisas com seres
humanos, Comitês de Ética em Pesquisa, a cuja apreciação os pesquisadores
interessados deverão submeter minuciosos Protocolos de Pesquisa, elaborados a
partir dos princípios de Bioética de respeito à autonomia individual, de
direito à informação, de consentimento esclarecido, de confidencialidade das
informações obtidas e de preponderância dos benefícios esperados sobre os
riscos previsíveis. Assim, Fortes et al. (1998) concluíram
que "Tendo a Universidade as finalidades de ensino, pesquisa e extensão
de serviços à comunidade, e considerando ser ela a principal geradora de
pesquisas científicas em nosso meio, emerge a sua responsabilidade em respeitar
e divulgar as diretrizes éticas que devem orientar a prática científica." Ao tecer considerações a respeito dos deveres
morais em Odontologia, Arbenz (1959) ressaltou que "o cirurgião-dentista
recém-formado, ao pretender iniciar a sua carreira profissional, deve ter
presente que vai realizar na sociedade um trabalho de grande responsabilidade,
por isso que, como o médico, vai cuidar da saúde de seus semelhantes". E, de acordo com Silva (1997) "É
exatamente em função dessa responsabilidade que existem normas éticas e
legais que norteiam o profissional em sua atividade laborativa".
(p.327) Assim o Código de Ética Odontológica vigente,
em seu artigo 2º, estabelece que: "A Odontologia é uma profissão que
se exerce, em benefício da saúde do ser humano e da coletividade, sem
discriminação de qualquer forma ou pretexto", o que, segundo Samico
(1994), em poucas palavras define os fins da Odontologia e a repulsa a qualquer
forma, meio ou propósito de discriminação. Discriminação esta, de acordo
com Ramos (1994), entendida no âmbito profissional, quer em relação aos
profissionais, quer em relação aos pacientes. Como pressuposto desta discriminação
ressalta-se também o princípio do respeito à dignidade do paciente,
constituindo um dever do cirurgião-dentista "zelar pela saúde e pela
dignidade do paciente" (art.4º, inciso III, do CEO), devendo ser
avaliada a saúde em todos os aspectos da integridade física e da integridade
emocional, muitas vezes negligenciada. A dignidade do paciente também não é
respeitada quando ele não é adequada e suficientemente esclarecido sobre sua
condição, sobre a terapêutica a ser instituída, as formas de atendimento, os
encaminhamentos, enfim, tudo que estiver relacionado com sua condição de saúde
e tratamento. Dessa forma, propomo-nos a proceder à análise das rotinas
adotadas para o atendimento e o encaminhamento de pacientes, e da documentação
odontológica utilizada para avaliação das condições de saúde destes indivíduos
nos serviços de triagem de algumas instituições de ensino odontológico da
região da grande São Paulo, visando verificar se as mesmas são suficientes
para suprir as exigências éticas. MATERIAL E MÉTODO O material é constituído de entrevistas com
responsáveis por serviços de triagem, elaboração de fluxograma, análise das
fichas de anamnese e de termos de autorização para diagnóstico e/ou execução
de tratamento adotados por serviços de triagem de quatro instituições de
ensino odontológico. Optamos por uma metodologia com abordagem
qualitativa, pois, segundo Demo (1988), um trabalho de mestrado pode admitir
"cuidados qualitativos" quando o pesquisador se esforça em tratar o
tema dentro da ótica da qualidade. RESULTADOS As entrevistas não estruturadas com responsáveis
por serviços de triagem proporcionaram a compreensão da forma de atendimento e
do encaminhamento oferecido aos indivíduos que procuram por estes serviços
para tratamento odontológico em instituições de ensino. A partir destas informações procedemos, por
meio de elaboração de fluxograma, à apresentação esquemática do processo
adotado como rotina para atendimento e encaminhamento nestas instituições com
a finalidade de facilitar a visualização e avaliação destas rotinas. (Figura
1) A avaliação das fichas de anamnese permitiram o
conhecimento de seu conteúdo e abrangência quanto à coleta e registro de
dados relativos ao levantamento das condições gerais de saúde, para avaliação
da oportunidade do tratamento realizadas nos serviços de triagem. Os termos de autorização são adotados pelos
serviços de triagem para esclarecimento e ciência dos pacientes que serão
submetidos a procedimentos de diagnóstico e/ou execução de tratamento por
alunos com finalidade didática. O esclarecimento quanto ao diagnóstico,
participação na terapêutica clínica ou, em alguns casos, em pesquisas em sua
maioria são de responsabilidade das disciplinas nas quais serão executados os
tratamentos.
Figura 1 - Fluxograma DISCUSSÃO As instituições de ensino odontológico devem
formar profissionais com visão holística e humanística da realidade
contextual em que se insere a Odontologia e a população que necessita deste
tipo de atenção, de modo a proporcionar, aos futuros profissionais condições
para desempenharem com desenvoltura adequada a prevenção, a restauração e a
manutenção da saúde bucal. Desta forma, os objetivos de um planejamento
educacional e curricular para formação de novos cirurgiões-dentistas devem
visar a formação de um profissional qualificado para atuação profissional
com consciência científica, técnica, ética e social. Caso a realidade em que
os mesmos irão atuar em um futuro próximo não lhes for transmitida, a frustração
profissional poderá ser uma das conseqüências desta falha educacional. E, de acordo com as considerações feitas por
Guimarães Jr. (1961) quando ressaltou que "profissão e formação do
profissional confundem-se, de certa forma, pois é impossível dissociar os
termos da equação: profissional mal formado é um mau profissional",
devemos pensar em redefinições a respeito do tipo de cirurgião-dentista que
desejamos formar e de qual a sociedade carece. Na verdade todos gostariam de ter profissionais
com sensibilidade social, contudo a forma de ensino atual não permite a formação
de um clínico com visão geral de sua atuação. A estrutura educacional
direcionada para a formação de cururgiões-dentistas atualmente praticada,
eminentemente técnica e fragmentada, não favorece uma prática
interdisciplinar, não evidencia as condições de um adequado relacionamento
profissional-paciente, além de não proporcionar informações mais efetivas em
relação à realidade nacional diretamente relacionadas ao exercício
profissional, impossibilitando o conhecimento de todas as implicações
decorrentes de um tratamento odontológico. Os cirurgiões-dentistas saem das faculdades com
boa formação científica, capacitados para a aplicação das mais recentes
tecnologias e utilização de materiais de última geração, o que caracteriza
uma formação que privilegia os aspectos técnicos, porém quase sempre sem
maiores conhecimentos sobre a sociedade na qual irão atuar profissionalmente. Cabe ressaltar as palavras de Ward (1972) quando
esclareceu que "o currículo deve ter continuidade, seqüência e
integração. A continuidade exige que todas as idéias básicas sejam
enfatizadas repetidamente através de todo o programa. A seqüência requer que
as idéias básicas sejam usadas em um contexto sempre mais amplo; e a integração
obriga referências cruzadas e contínuas entre todos os cursos ensinados ao
mesmo tempo". A disposição curricular das disciplinas
atualmente adotada pela maioria das faculdades de odontologia não contempla
estes parâmetros de integração, tanto horizontal como vertical, impedindo, de
certa forma, a formação do futuro profissional voltada para uma apreciação
global do paciente. A formação profissional do cirurgião-dentista
apresenta um desenvolvimento curricular peculiar, uma vez que, para a aplicação
e ampliação de conhecimentos e habilidades direcionadas à atuação
profissional, são praticados procedimentos clínicos em algumas etapas do
processo ensino-aprendizagem. Como a procura por este tipo de atendimento tem
apresentado um número excedente ao que as instituições de ensino necessitam
para o cumprimento da grade curricular de seus cursos e da disponibilidade de
vagas nas disciplinas clínicas, estas instituições são obrigadas a limitar
ou mesmo direcionar o atendimento. Para prestação de atendimento odontológico à
população, as instituições de ensino dispõem do suporte oferecido por um
serviço de triagem que promove um adequado fluxo de pacientes para que possam
ser supridas as necessidades didáticas de seus alunos relativas às atividades
clínicas, além das necessidades relativas às pesquisas clínicas realizadas
na instituição. Este serviço de triagem é essencial e de
fundamental importância, uma vez que exerce a função de promover a seleção,
a orientação e o encaminhamento dos indivíduos que procuram a instituição
de ensino para tratamento odontológico. O fato é que percebe-se que, na sistemática
de encaminhamento e atendimento adotada, a principal preocupação está
direcionada ao preenchimento de vagas. No processo de triagem são realizados, em um
primeira etapa, procedimentos de exame clínico da cavidade bucal para averiguação
das necessidades odontológicas e aplicação de questionário ou mesmo realização
de entrevista para conhecimento das condições gerais de saúde e, assim,
avaliar a oportunidade do tratamento odontológico. Após as avaliações são
anotadas as necessidades de tratamento individuais para encaminhamento, segundo
os procedimentos pertinentes de competência, a cada uma das disciplinas clínicas. Quando as vagas para atendimento nas disciplinas
específicas já estão esgotadas, os indivíduos terão seus nomes inscritos em
uma lista de espera e, dessa forma, deverão aguardar nova oportunidade para
submeterem-se ao tratamento odontológico. Com este tipo de abordagem um indivíduo que, em
determinado momento da avaliação clínica e das suas condições de saúde
apresenta-se com determinadas manifestações, quando da época de seu
atendimento provavelmente apresentará outro quadro, com possibilidade de
agravamento de suas condições, podendo resultar em encaminhamento a outro tipo
de atendimento específico da área odontológica. Na dependência de suas necessidades e do
encaminhamento a ser realizado, a espera por vagas para tratamento em outra
disciplina poderá ser uma realidade, e então o ciclo se repetirá até o
atendimento efetivo. Dessa forma, considerações a respeito dos indivíduos em
relação à integridade física, psíquica e social mostram-se negligenciadas. As instituições de ensino, estando os
encaminhamentos e as convocações de pacientes condicionados à existência de
vagas para atendimento nas disciplinas clínicas, podem não favorecer ou mesmo
impossibilitar a seqüência do planejamento de um tratamento odontológico
adequado. Sob este contexto, pode-se dizer que a formação
profissional de cirurgiões-dentistas está se distanciando do objetivo de
consolidar, nos futuros profissionais, uma visão holística, ética e social da
realidade contextual em que se inserem a profissão e a população que
necessita deste tipo de atendimento. Em muitas ocasiões, a sistemática adotada em
relação aos encaminhamentos pode ir de encontro com a metodologia de
tratamento odontológico considerada ideal ou satisfatória. Devendo ser
salientado que a seqüência na qual os processos terapêuticos são realizados
pode representar a diferença entre o sucesso e a falha de um tratamento odontológico. Assim, a preocupação demonstrada por Perri de
Carvalho (1996) ao tecer considerações a respeito dos caminhos para a educação
odontológica nacional tem sido justificada. Este autor salientou que os
cuidados com a saúde geral dos pacientes são mais um ideal do que a realidade
na educação clínica uma vez que, no processo instrucional adotado, são mais
evidenciados os procedimentos do que os cuidados com os pacientes. Dessa forma, o cirurgião-dentista deverá ser
capaz de reconhecer as alterações localizadas na cavidade bucal e estruturas
anexas, quer sejam reflexos de doenças sistêmicas ou não, ou mesmo doenças
gerais que possam comprometer ou impedir o tratamento odontológico. No Brasil, as Diretrizes Curriculares para os
Cursos de Odontologia, propostas em 1998, estabeleceram que os estudantes de
Odontologia deverão ser capazes de desenvolver conhecimento e habilidades para
coleta, observação e interpretação dos dados para a construção do diagnóstico,
desenvolver um raciocínio lógico e análise crítica, e assim propor e
executar planos de tratamento adequados. Seja qual for a metodologia adotada para o
levantamento das condições de saúde dos pacientes, estas informações devem
ser colhidas de modo a representarem as reais condições destes indivíduos.
Estes inventários de saúde devem ser redigidos de forma adequada à capacidade
de compreensão do mesmo e, desta forma, a veracidade das informações
fornecidas seria provavelmente obtida mais facilmente. A coleta e a documentação da avaliação das
condições de saúde torna-se imprescindível, então, para que seja elaborado
e proporcionado um adequado tratamento odontológico. Outro aspecto de relevante
importância é que desta avaliação inicial dará origem a um documento que
fará parte do prontuário odontológico, que deverá ser constituído e
arquivado para cada paciente, uma vez que, para a correta elaboração de um
prontuário, deve-se proceder à documentação circunstanciada de toda a evolução
- quanto às necessidades qualitativas e quantitativas - do tratamento. Assim, as implicações jurídicas que incidem
sobre a documentação que constitui os prontuários odontológicos - quanto aos
aspectos clínicos, administrativos e legais - também incidem sobre a documentação
originada em atendimentos realizados por instituições de ensino. Quando do
questionamento, seja em âmbito civil ou em âmbito penal, seja em questões de
responsabilidade profissional ou mesmo em casos de identificação por meio de
características odonto-estomatológicas, esta documentação servirá de prova,
o que torna essencial sua constituição e arquivamento por parte dessas
instituições. Dessa forma, adaptando as palavras de Silva
(1997), não se pode compreender que a atuação profissional possa se
desenrolar sem o conhecimento do estado geral de saúde do paciente, dada a
responsabilidade profissional, seja ela ética, legal ou administrativa. Além
disso, há que serem consideradas as implicações civis ou penais, que serão
assumidas pelo cirurgião-dentista - ou, no caso do presente estudo, pelas
instituições de ensino odontológico - a partir do momento em que assumem a
realização do tratamento em todas as suas fases. As instituições de ensino também são, em
potencial, centros de pesquisa. Dessa forma, os indivíduos que procuram por
seus serviços devem ser esclarecidos quanto à sua real participação nas
atividades desenvolvidas pela instituição. Quando da participação dos indivíduos que
procuram a instituição para tratamento odontológico em pesquisas, a apresentação
do termo de consentimento esclarecido exigido para sua realização será de
responsabilidade do pesquisador. Nestes casos, é de fundamental importância a
atuação dos Comitês de Ética em Pesquisa, que têm como principal preocupação
zelar pelos direitos e o bem-estar dos sujeitos da pesquisa. Os princípios de Bioética de respeito às
pessoas, beneficência e justiça que devem nortear as pesquisas envolvendo
seres humanos, também devem ser aplicados quando da formação dos futuros
cirurgiões-dentistas e da atuação profissional. Assim, o indivíduo deve ser
respeitado quanto à sua integridade e dignidade, de forma a poder ter acesso à
atenção à saúde bucal e ser beneficiado com a aplicação dos conhecimentos
técnico-científicos pertinentes à Odontologia, praticados de forma
competente. O fator humano deve ser priorizado na busca de
novos conhecimentos, tanto no que se refere ao aspecto educacional como no que
concerne às atividades de pesquisa. Desta forma, a Bioética deve nortear todos
os níveis de aplicação das ciências, de modo a adequar a ciência à condição
humana. Com isto tenta-se evitar os famosos, ou mesmo não divulgados, abusos em
pesquisas com seres humanos cometidos em nome da evolução científica. Assim
devemos buscar, de alguma forma, a enfatização dos aspectos humanísticos, com
a reafirmação do homem como participante e co-participante da evolução
tecnológica e científica, e não como um ser submisso a essa evolução. Como preceito ético, os pacientes devem ser
respeitados em sua dignidade, como leigos que merecem ter informações a
respeito de suas condições de saúde e, dessa forma, serem adequada e
suficientemente esclarecidos a respeito da terapêutica a ser instituída.
Entretanto, nas instituições de ensino, os tratamentos estão condicionados
aos encaminhamentos, o que dificulta o adequado esclarecimento dos pacientes.
Mesmo que a seqüência terapêutica não seja conhecida, os indivíduos devem
ser esclarecidos quanto à natureza destes procedimentos e encaminhamentos. Assim, os princípios éticos também devem ser
evidenciados quando da formação dos futuros cirurgiões-dentistas, de modo a
implementar uma sólida postura ética para aplicação em sua atuação acadêmica
e posterior exercício profissional. Além disso, é necessário enfatizar os
aspectos humanos, holísticos e sociais, que têm sido propostos e almejados
pela sociedade, desde a vida acadêmica.
Feita a análise da documentação e das rotinas
dos diferentes serviços de triagem das instituições de ensino que colhemos
como amostra, concluímos que as mesmas não são suficientes para suprir as
exigências éticas. A fim de suprir as referidas exigências
sugerimos que: 1.
deveriam ser mais privilegiados os aspectos humanos e sociais quando do
encaminhamento e atendimento de pacientes que procuram por instituições de
ensino odontológico; 2.
a partir do momento em que os currículos e procedimentos das instituições
deixarem de priorizar apenas a aquisição de conhecimentos técnicos e científicos,
ampliando o espaço para a aplicação dos conhecimentos humanos e sociais e
respeitando todos os níveis de integração curricular, estaremos muito próximos
de formar um profissional de excelência técnica e elevada consciência social,
cuja atuação será sempre norteada pelos princípios da ética; 3.
os serviços de triagem deveriam possibilitar a aplicação da filosofia
de ensino adotada pela instituição em relação aos aspectos humanos e
sociais, que terão repercussão direta na formação e atuação profissional
de seus alunos e, como tal, merecedora de maior atenção.
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scientific knowledge, apprehended in patients who look for odontological care,
in those practical dental instruction. As this search has currently increased,
those institutions have been forced to limit and guide such odontological care.
This has brougth up a new dilema: how to combine people’s needs towards
odontological treatment and the different requirements concerning professional
back-ground. In this study we have analyzed the regular procedures adopted in
the selection services of Dental Schools concerning patients’ attendence and
guidance and documentation used in order to evaluate the health conditions of
those people in odontological selection services, aiming to verify is such
services are enough to fulfil ethical requirements. From the analysis of that
documentation and the regular procedures used in those odontological services,
that is, through interviews, elaboration of flow graphics, evaluation of
anamnesis records and authorization terms, we have been to conclude that those
services are not enough to fulfil ethical requirements. Therefore, from the
moment Dental Teaching Schools stop preceding the more acquisition of techinical
and scientific knowledge and widen space to the application of human and social
knowledge, respecting all different levels in the curricular integration, we
will be very close to a new era when professionals will graduate with excellent
techinal background as well as with high social awareness, professionals whose
performance will always be guided by the principles of ethics. |
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