Instituto Médico Legal Brasília DF
Caso C____ R____ da S____ *
(*esquartejada)
Laudo n. _____/91
Parte I

I Introdução
Aos vinte e nove dias dos mês de setembro de mil
novecentos e noventa e um, atendendo à requisição da Guia de número ___/91, do
Delegado da __ª Delegacia de Polícia GDF, para proceder o exame médico-legal de
um cadáver adulto, do sexo feminino, de cor branca, esquartejada, com ausência de
cabeça e das mãos.
II Descrição
O corpo deu entrada neste Instituto às 19:00 horas
do dia 29 de setembro de 1991, acompanhado da Guia número ___/91 da __ª D.P.. A
necrópsia foi iniciada às 08:00 horas do dia 30 de setembro de 1991.

Foto 1.1 Corpo esquartejado com ausência da
cabeça e das mãos.
III - Apresentação
Cadáver de adulto, jovem, do sexo feminino, de cor
branca, despida, com ausência da cabeça e das mãos. Pesando aproximadamente 63 Kg;
idade aparentando 30 anos; tipo sangüíneo O positivo.

Foto 1.2 Cadáver de adulto, com as partes
mutiladas em seqüência
IV Exame Externo
Rigidez cadavérica pouco palpável, ausência de
livores de hipóstase, apresentando: tronco com 66 centímetros, pés 21,5 centímetros,
altura de pé ao joelho 43 centímetros, largura da coxa 55 centímetros, cintura 55
centímetros, panículo adiposo espesso, distância entre o pé e o manúbrio 1,33
centímetros, unhas dos pés com esmalte cor-de-rosa.

Foto 1.3 Mostrando em detalhes a seqüência
dos ferimentos em membros inferiores

Foto 1.4 Mostra as unhas dos pés com esmalte
cor-de-rosa.
Apresentação de equimose nas seguintes regiões:
peitoral esquerda, peitoral direita, seio esquerdo, terço superior da face posterior do
antebraço direito, terço médio da face posterior do antebraço esquerdo, terço médio
da face posterior do antebraço esquerdo, terço inferior da face anterior da perna
direita e dorso do pé direito.

Foto 1.5 - Demonstrando as equimoses

Foto 1.6. Detalhes mais visíveis das
equimoses
Pêlos pubianos e axilares pretos sem cortes. Duas
feridas incisas superficiais Post-mortem, no terço inferior da face posterior do
antebraço esquerdo. Múltiplas ações de secção do pescoço com fratura da coluna
cervical e desarticulação total do pescoço, seccionado todos os vasos da base do
pescoço, incluindo traquéia e esôfago. Secção dos braços, próximo a articulação
do ombro, com fratura dos úmeros deixando pequeno coto.

Foto 1.7

Foto 1.8 - Seqüência dos ferimentos.

Foto 1.9 Secção de todos os vasos da base do
pescoço, incluindo traquéia e esôfago.

Foto 1.10 - Posição dos planos profundos musculares
e desarticulação dos joelhos.
V Exames Interno
Hematoma no subcutâneo, nas regiões peitorais
esquerdo e esternal. Não encontramos lesões torácicas e abdominais. Útero
não-gravídico, com 10 centímetros longitudinais, 6,5 centímetros transversal e 3,5
centímetros antero-posterior com colo aberto. Pesquisa de espermatozóide na secreção
vaginal e anal foi negativa. Solicitamos exames toxicológicos com coleta de material do
estômago, rins e pulmão.

Foto 1.11 -
Parte II
Do achado da Porção Cefálica e das Mãos
Após mais ou menos 30 (trinta dias), decorridos do
evento inicial, foram encontrados a porção cefálica e as mãos.
I Exame Externo da Porção Cefálica
A porção cefálica apresentava-se impregnada de
terra, com sinais de putrefação, cabelos lissótricos, longos e de cor preta. Após
limpeza cuidadosa, notamos escoriações e equimose na região frontal, no mento próximo
a articulação têmporo-mandibular. Na terceira vértebra cervical, havia uma fratura,
provavelmente, em decorrência da desarticulação.

Foto 2.1 - Peritos no local onde foi encontrada a
porção cefálica e das mãos, vista da ponte de ligação entre Samambaia e Taguatinga.

Foto 2.2 Peritos realizam as buscas da
porção cefálica e das mãos.

Foto 2.3 A cova e os restos mortais
encontrados no local indicado

Foto 2.4 - Perito examina no local os restos
encontrados.

Foto 2.5 Mãos e cabeça ainda no local.

Foto 2.6 Equimose próxima a articulação têmporo-mandibular.

Foto 2.7 Escoriações e equimose no mento

Foto 2.8 - Demonstrando o trauma na região têmporo-mandibular.

Foto 2.9 Demonstrando escoriações e equimose
na região frontal.
II Exame Interno da Porção Cefálica
Após dissecção minuciosa das partes moles, foi
verificado que havia desarticulação da articulação têmporo-mandibular, do lado
esquerdo, por provável ação de instrumentos contundente.

Foto 2.10

Foto 2.11 Demonstra o início da secção do
pescoço, onde havia reação vital, da esquerda para direita.

Foto 2.12 Encaixe da cabeça e das mãos.

Foto 2.13 Desarticulação da articulação em
decorrência do trauma.

Foto 2.14 Foto 2.13 em posição mais
próxima.
III Exame Externo das Mãos
No exame externo, as mãos apresentavam-se ainda em
bom estado de conservação, impregnado de terra, ainda possibilitou o exame
dactiloscópico.

Foto 2.15 Demonstração das mãos e cabeça
ainda impregnados de terra.

Foto 2.16 Demonstração das mãos, ainda no
local com saída parcial das luvas epidérmicas.

Foto 2.17 Detalhe da foto demonstrando o
encaixe do punho e o antebraço esquerdo, notando-se uma aliança no terceiro
quirodáctilo.
Parte III
I Sobreposição de Imagens
Foi realizado a sobreposição de imagens, conforme
as técnicas preconizadas, através de câmeras e equipamentos de mixagem. A foto e o
crânio examinados apresentam os pontos craniométricos coincidentes.

Foto 3.1 Foto da vítima.

Foto 3.2 Esqueleto Cefálico crânio-foto.

Foto 3.3 Esqueleto cefálico crânio-foto com
pontos craniométricos coincidentes.

Foto 3.4 Estudo através dos pontos craniométricos.

Foto 3.5 Sobreposição da foto e do crânio.

Foto 3.6 Coincidência na faixa orbitária.
Parte IV
I Odontograma
Dente |
Descrição |
11 |
Dente
íntegro, com apenas uma alteração de posição, uma giroversão disto-vestibular |
12 |
Dente
íntegro, porém com uma pequena giroversão disto-palatina, apresentando-se ligeiramente
distalizado em relação ao incisivo central |
13 |
Dente
íntegro, com uma distalização acentuada e seu eixo longitudinal leigeiramente inclinado
para a parte posterior |
14 |
Dente
ausente. Foi extraído em vida, sem alvéolo, está praticamente reabsorvido com espaço
quase fechado devido a mesialização do dente 15. |
15 |
Posicionamento
de intrusão mais restauração em amálgama de prata nas faces mesial, oclusal e distal |
16 |
Coroa
completamente destruída por processo patológico, restando apenas as três raízes
implantadas no alvéolo |
17 |
Ligeira
extrusão, provavelmente por não existir o denta antagônico da arcada inferior.
Restauração em amálgama de prata nas faces mesial, oclusal e palatina |
18 |
Restauração
ocluso-palatina em amálgama de prata |
21 |
Dente
íntegro, com acentuada giroversão disto-vestibular |
22 |
Dente
íntegro, com pequena giroversáo disto palatina e com uma pequena distalização em
relação ao incisivo central |
23 |
Ausente.
Extração há vários anos, com alvélo totalmente reabsorvido |
24 |
Ausente.
Rebordo alveolar completamente cicatrizado |
25 |
Ligeiramente
mesializado devido a ausência do primeiro e segundo pré-molares. Restauração mesial,
oclusal e distal em amálgama de prata |
26 |
Coroa
ausente. Há apenas duas raízes residuais (meso-vestibular e disto-vestibular),
implantadas no alvéolo |
27 |
Ligeira
extrusão, característica de pessoas que não possuía o dente antagônico (na arcada
inferior). Restauração em amálgama de prata que abrange a região oclusal e palatina |
28 |
Ligeiramente
distalizado em relação ao segundo molar. Restauração em amálgama de prata, vestibular
e palatina |
31 |
Dente
íntegro |
32 |
Dente
íntegro |
33 |
Dente
íntegro |
34 |
Restauração
ocluso-distal em amálgama de prata |
35 |
Restauração
ocluso-distal em amálgama de prata |
36 |
Extraído
em vida. Rebordo alveolar completamente cicatrizado |
37 |
Extraído
em vida. Rebordo alveolar completamente cicatrizado |
38 |
Extraído
em vida. Rebordo alveolar completamente cicatrizado |
41 |
Dente
íntegro |
42 |
Dente
íntegro. Pequeno desgaste na borda incisal que parte do ponto médio para a face distal
inclinado de cima para baixo e da linha mediana para a linha lateral |
43 |
Dente
íntegro |
44 |
Restauração
em amálgama de prata nas faces oclusal e mesial. Ligeira distalização em relação ao
canino |
45 |
Restauração
em amálgama de prata na face oclusal |
46 |
Ausente.
Extraído em vida. Rebordo alveolar completamente reabsorvido, indicando extração,
provavelmente há mais de 10 anos |
47 |
Ausente.
Extraído em vida. Rebordo alveolar completamente reabsorvido, indicando extração,
provavelmente há mais de 10 anos |
48 |
Ausente.
Extraído em vida. Rebordo alveolar completamente reabsorvido, indicando extração,
provavelmente há mais de 10 anos |
Parte V
I Discussão
Os ferimentos descritos no esqueleto cefálico, na
altura da terceira vértebra cervical, foi por ação de agente cortante no pescoço,
sendo fatal para a vítima, notando-se que o trauma em região têmporo-mandibular
(desarticulação) foi produzido por instrumento contundente e, de acordo com os exames
realizados verificou-se que a vítima ainda estava viva quando foi iniciada a seqüência
dos cortes na região cervical.
II - Conclusão
A morte ocorreu por choque hipovolêmico devido a
hemorragia aguda externa, em conseqüência da ação de agente cortante no pescoço.
III Resposta aos Quesitos
01. Se houve morte?
Sim
02. Qual a causa da morte?
Vide conclusão
03. Qual o instrumento ou meio que produziu a morte?
Ação de agente cortante.
04. Se foi produzido com o emprego de veneno, fogo,
explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel?
Sim. Cruel.
Brasília (DF), 25 de fevereiro de 1992.
Dr. José Eduardo da Silva Reis
Dr. Erasmo Tokarski
Dr. Mício Antonio Alves